terça-feira, 29 de março de 2011

ENTREVISTA BRÁULIO MANTOVANI & THIAGO DOTTORI (VIPS)

Entrevista com os roteiristas Bráulio Mantovani e Thiago Dottori 
Originada de um primeiro ensaio de roteiro sobre o farsante que se fez passar pelo dono de uma companhia aérea brasileira durante o carnaval do Recife, a ideia para a trama de VIPs ganhou um novo enfoque a partir da construção de seu argumento. O objetivo do diretor Toniko Melo era transformar em ficção a história real, buscando um viés mais aprofundado, que fosse além dos golpes dados por Marcelo da Rocha. Coube a Bráulio Mantovani e Thiago Dottori delinear os primeiros contornos do Marcelo ficcional: um personagem forte, cujos traços psicológicos deveriam ser explorados em toda sua complexidade.
Hoje, só aqui no blog, você conhece mais sobre esse processo de conversão do real em ficção. Confira abaixo a entrevista com a brilhante dupla responsável pelo roteiro de VIPs: Bráulio Mantovani e Thiago Dottori.
Como foi o processo de adaptação do livro da Mariana Caltabiano? Você diria que é baseado no livro, ou livremente inspirado?
Bráulio – O processo de adaptação foi um pouco complicado. A vida do verdadeiro Marcelo é repleta de acontecimentos. São tantos os golpes (e muitos deles tão interessantes) que foi difícil escapar à tentação de contar todos. Outros roteiristas tentaram isso antes de o Thiago Dottori e eu entrarmos no processo. Lemos esses roteiros anteriores, todos muito bons, e percebemos que a quantidade de golpes do Marcelo que aconteceram na realidade – tão saborosos quando lidos no livro da Mariana – acabavam produzindo, no roteiro, um efeito de cansaço e repetição, por mais que os roteiros estivessem bem escritos.
Foi então que, ainda no processo do argumento (que desenvolvi em parceria com o diretor Toniko Melo), procuramos exaustivamente um outro viés para o filme. Percebi que o que de fato havia seduzido o Toniko na história real não eram os golpes do Marcelo, mas os traços psicológicos do golpista. Especialmente a característica que diferenciava o Marcelo de outros golpistas (famigerados ou não): ele se deixou prender, no Rio de Janeiro, depois de se fazer passar por Henrique Constantino no Recife.
Thiago - Acho que as inúmeras histórias vividas por Marcelo causam uma espécie de encantamento em quem toma contato com elas. E por isso mesmo havia ali uma armadilha para ser desmontada; era preciso perceber o que havia por trás disso tudo. No roteiro, demos um mergulho atrás desse sujeito, do tipo: “Você pode ter enganado muita gente, mas a nós, escritores e diretor do filme, você não vai conseguir enganar. Mostre sua cara”. Nesse movimento, nós criamos um outro personagem que, hoje, me parece bem diferente do personagem real. Essa descoberta da motivação do Marcelo foi sempre o que nos norteou na construção do roteiro.
Como foi a definição do Marcelo como personagem de ficção? Houve alguns contornos da personalidade dele que foram adaptados para o roteiro?
Bráulio – O Marcelo do roteiro não existiria se não existisse o Marcelo da realidade. Porém, o Marcelo da ficção é muito diferente do Marcelo que se fez passar por dono da Gol e hoje está preso. Muitas das coisas que aconteceram na realidade acontecem também no roteiro. Porém, essas mesmas ações e peripécias possuem uma outra verdade: a verdade do personagem ficcional.
Thiago – Há um aspecto curioso sobre isso. Lembro que enquanto trabalhávamos no roteiro, já bastante distantes do material original (as entrevistas e o livro de Mariana), soubemos que haveria uma matéria na TV sobre o Marcelo. Obviamente, eu e o Bráulio assistimos à matéria, que foi veiculada num domingo à noite. Fiquei um pouco intrigado com o que vi. Algo ali me incomodava. Logo depois meu telefone tocou; era o Bráulio. A primeira coisa que ele me disse foi: “Nós não estamos fazendo o filme sobre esse cara. Esse não é o personagem do nosso roteiro”. Foi quando eu finalmente consegui me desapegar do real e partir de vez para a ficção.
E os outros personagens? São todos “radicalmente inventados” (por exemplo, a Sandra – Arieta Corrêa –, a única que percebe que o Marcelo não é o Henrique Constantino)?
Bráulio – Quase todos os personagens do filme saíram, de alguma maneira, da história real. Todos, porém, foram radicalmente reinventados para compor o universo do protagonista que nós inventamos. Como eu disse antes, a realidade forneceu os nutrientes para alimentar a nossa criação. O DNA de todos os personagens, porém, é pura ficção. Vale ressaltar aqui que a personagem da mãe do Marcelo (que não tem nada a ver com a mãe real) ganhou no filme uma dimensão muito mais interessante em relação ao roteiro graças à interpretação de Gisele Froes. Essa atriz maravilhosa fez a personagem crescer. Ela soube potencializar o que estava apenas insinuado no roteiro. Interpretações como a de Gisele são um presente para qualquer escritor.
Thiago - Aliás, se tem um aspecto que realmente salta aos olhos no filme foram as escolhas de elenco feitas pelo Toniko Melo e pela Cecília Homem de Mello. Além da maravilhosa interpretação da Gisele Froes, citada pelo Bráulio, há muitos personagens, e todos estão muito bem interpretados pelos atores. A personagem da Sandra, vivida pela Arieta Corrêa, por exemplo, era um tremendo desafio, porque ela precisava se estabelecer muito rapidamente; em poucos planos, era necessário que ela se destacasse do universo ao seu redor. Acho que ela foi muito feliz, não só nisso, mas também na cumplicidade que ela conseguiu estabelecer com o personagem do Marcelo. Tudo isso ilumina a história que a gente escreveu, muitas vezes revelando aspectos que a gente não tinha pensado.
Quais foram os temas da história de Marcelo que mais te interessaram para o roteiro? Há uma crítica ao mundo de aparências dos chamados VIPs, um mundo do qual o Marcelo revela toda a superficialidade.
Bráulio – Para mim, essa questão do mundo das celebridades é quase periférica no roteiro. O que me interessa mais é o personagem que nós criamos. Ele tem uma singularidade original. O mundo das aparências povoado por celebridades é apenas um palco onde a fantasia de Marcelo ganha uma verdade assustadora. A crítica ao universo VIP que, acredito, está presente no filme é apenas uma camada a mais da história.  A subjetividade enviesada de Marcelo é, na minha opinião, o foco central do filme.
Thiago – Além dos temas levantados pelo Bráulio, há um tema que me interessa bastante nessa história: a questão da identidade. Eu me identifico com um sujeito em busca da sua própria identidade. Acho que é uma questão com que todos nós nos deparamos em algum momento. Outra coisa que me interessa é perceber o quanto as pessoas que cercam o Marcelo, de alguma maneira, precisam da sua presença ali. É como se a chegada dele trouxesse uma relevância para aquele ambiente que até então não existia. Acho que é nesse flanco que ele atua, é por isso que as pessoas se deixam levar por sujeitos como ele, acreditando na sua fantasia como um espelho.

VIPs
Produtora: O2 Filmes 
Direção: Toniko Melo 
Produção: Fernando Meirelles, Paulo Morelli, Bel Berlinck 
Argumento: Toniko Melo e Bráulio Mantovani, A.C. 
Roteiro: Bráulio Mantovani, A.C. e Thiago Dottori, A.C. 
Baseado no livro “VIPS – Histórias Reais de um Mentiroso” escrito por Mariana Caltabiano 
Direção de Fotografia: Mauro Pinheiro Jr., ABC 
Direção de Arte: Frederico Pinto 
Direção de Produção: Rodrigo Castellar 
Produção de Elenco: Cecília Homem de Mello 
Montagem: Gustavo Giani 
Música: Antonio Pinto 
Supervisão de Pós Produção: Hugo Gurgel 
Supervisão de Edição de Som: Alessandro Laroca 
Mixagem: Armando Torres Jr. 
Som Direto: Romeu Quinto, ABC 
Figurino: Verônica Julian 
Maquiagem: Donna Meirelles
Distribuidora
Paramount Pictures Brasil 


Entrevista feita pelo blog oficial do filme.

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